ALA L - CAPÍTULO I - Acordando na floresta
Written by Marco Antonio Mendes Ferreira on 15:33Ao abrir os olhos, Ricardo se deparou com um lindo céu azul. Nunca havia visto um céu tão limpo. Pensou estar sonhando. A brisa fresca batia em seu rosto, pássaros cantavam e o sol deixava o dia quente, mas o ar fresco da floresta tornava o ambiente agradável. Ainda deitado, sem se mover, fechou os olhos novamente e pensou. – Que sonho da hora. Sem morte nem miséria, só coisa linda. – Mas uma brisa gélida o fez abrir os olhos, levantar a cabeça apenas o suficiente para olhar ao redor.
Estava em uma espécie de floresta. Não era uma mata muito densa, mas era uma floresta. – Isso não é sonho. É real. – Livrou-se de seus pensamentos e, rápido como um felino, ficou de pé e encostou suas costas na árvore na esperança de se esconder. Olhou ao redor e não avistou ninguém. – Mais que merda é essa? – Falou em voz alta. Ricardo costumava falar sozinho e em voz alta, como se estivesse conversando com alguém.
Estava agitado e nervoso. – Cadê os home? Cadê todo mundo? – Tentava permanecer a maior parte do tempo abaixado para não ser visto e procurava alguém ao redor. – Ainda tenho sete anos pra pega. Não iam me liberar por nada. – Começou a coçar o braço esquerdo próximo do ombro. Foi então que olhou para seu próprio corpo e suas roupas. Desesperado e sem entender o que estava acontecendo, Ricardo passava a mão apressadamente sobre suas roupas sem reconhecê-las. – Cadê minhas roupas? Que roupa é essa? Puta que pariu, cadê meu relógio. Cadê minhas corrente. Minha mina que me deu os baguio mano, cadê? Vo mata o maldito que me tomo os baguiu. Se eu pega o disgraçado ele ta morto.
Continuou apalpando a roupa até que encontrou um bilhete no bolso e, como de costume, leu em voz alta. Como sua instrução era precária, a leitura era lenta e pausada, quase separando as sílabas das palavras. – Você deve estar nesse exato local em trinta dias, nesse mesmo horário. Caso não consiga, será deixado ai para sempre. – Entendeu o que a mensagem dizia, mas a achou sem sentido. Estava confuso e perdido. – O disgraçado leva o meu relógio e qué que eu volte no mesmo horário!? É um disgraçado mesmo. – Parou e pensou um pouco mais. – Beleza. Se eu voltar eu volto pra cadeia mesmo. Pode me deixa aqui. Nem ligo.
Olhou ao redor, não havia ninguém. Estava sozinho no meio do que parecia uma floresta. Pegou uma pedra no chão, colocou no bolso e subiu na árvore. Chegando no terceiro galho, começou a raspar a árvore, tirando toda a casca. Depois escreveu seu nome no espaço descascado.
Desceu da árvore e decidiu em qual direção seguir. Olhou para o sol e resolveu seguir em sua direção. Precisaria encontrar esse mesmo local quando voltasse. – Vou seguir o Sol, assim quando for para voltar é só ficar com ele nas costas. – Além disso, foi fazendo marcas em algumas árvores. Precisava de uma trilha que pudesse seguir na volta e que não fosse apagada.
Foi contando os passos. Depois de três horas andando, seu estômago começou a lembrá-lo de que precisava se alimentar. – Que fome. Essa merda de floresta que não acaba. Não tem rua, não tem trilha. Quem foi que me largou aqui? – Sua mente fervilhava tentando entender o que aconteceu.
Estava agitado e nervoso. – Cadê os home? Cadê todo mundo? – Tentava permanecer a maior parte do tempo abaixado para não ser visto e procurava alguém ao redor. – Ainda tenho sete anos pra pega. Não iam me liberar por nada. – Começou a coçar o braço esquerdo próximo do ombro. Foi então que olhou para seu próprio corpo e suas roupas. Desesperado e sem entender o que estava acontecendo, Ricardo passava a mão apressadamente sobre suas roupas sem reconhecê-las. – Cadê minhas roupas? Que roupa é essa? Puta que pariu, cadê meu relógio. Cadê minhas corrente. Minha mina que me deu os baguio mano, cadê? Vo mata o maldito que me tomo os baguiu. Se eu pega o disgraçado ele ta morto.
Continuou apalpando a roupa até que encontrou um bilhete no bolso e, como de costume, leu em voz alta. Como sua instrução era precária, a leitura era lenta e pausada, quase separando as sílabas das palavras. – Você deve estar nesse exato local em trinta dias, nesse mesmo horário. Caso não consiga, será deixado ai para sempre. – Entendeu o que a mensagem dizia, mas a achou sem sentido. Estava confuso e perdido. – O disgraçado leva o meu relógio e qué que eu volte no mesmo horário!? É um disgraçado mesmo. – Parou e pensou um pouco mais. – Beleza. Se eu voltar eu volto pra cadeia mesmo. Pode me deixa aqui. Nem ligo.
Olhou ao redor, não havia ninguém. Estava sozinho no meio do que parecia uma floresta. Pegou uma pedra no chão, colocou no bolso e subiu na árvore. Chegando no terceiro galho, começou a raspar a árvore, tirando toda a casca. Depois escreveu seu nome no espaço descascado.
Desceu da árvore e decidiu em qual direção seguir. Olhou para o sol e resolveu seguir em sua direção. Precisaria encontrar esse mesmo local quando voltasse. – Vou seguir o Sol, assim quando for para voltar é só ficar com ele nas costas. – Além disso, foi fazendo marcas em algumas árvores. Precisava de uma trilha que pudesse seguir na volta e que não fosse apagada.
Foi contando os passos. Depois de três horas andando, seu estômago começou a lembrá-lo de que precisava se alimentar. – Que fome. Essa merda de floresta que não acaba. Não tem rua, não tem trilha. Quem foi que me largou aqui? – Sua mente fervilhava tentando entender o que aconteceu.
Mais alguns minutos e começou a ouvir sons de pessoas falando. – Beleza. Cidade grande. – Pensou em correr mas não podia perder a numeração de passos e precisava continuar marcando algumas árvores.
Chegou à margem da floresta. Escondeu-se atrás de uma enorme árvore para observar as pessoas antes de ser visto. As pessoas vestiam-se com roupas simples, parecidas com as suas. Eram vestidos, calças e blusas de aparência muito antigas. Pareciam medievais. As casas eram de madeira e barro, com os telhados também de madeira ou de palha. Haviam porcos, galinhas e cavalos para todos os lados. – Que inferno. Me largaram em alguma cidade do interior. Olha as roupas desse povo. Parece um monte de trapo. – Procurou por fios de telefone e de luz, mas não encontrou nenhum.
Subiu na árvore e repetiu o ritual. Descascou uma parte dela para poder escrever. Ao invés de escrever seu nome, resolveu anotar a quantidade de passos pois no futuro poderia esquecer ou confundir-se. – 20 X 1000.
Desceu da árvore e saiu lentamente da floresta. Todos da cidade pararam seus afazeres e começaram a olhar em sua direção. Começou a sentir-se um inseto. Era como se estivesse encolhendo. Todos olhavam para ele como se ele fosse um monstro ou uma aberração. Foi então que percebeu, todos na cidade eram brancos. Não sabia mais se estavam olhando para ele por ser um estranho saído do meio da mata ou por ser pardo. Falou consigo mentalmente. – Qual é? Esses branquelo nunca viram um moreninho não!? Bando de racistas dos inferno.
As mulheres mandavam os filhos pequenos entrarem. Todos foram deixando as ruas e entrando para as suas casas. Três homens altos, bem fortes, com martelos e machados vieram em sua direção. – Pronto. Ferrô. Nem fiz nada e lá vem encrenca. – Pensou Ricardo.
Ricardo nunca teve vida fácil. Vivendo desde nascido na favela do Paraisópolis, já vivera de tudo. Já havia passado muita fome junto da mãe e dos três irmãos. O pai morrera antes de seu nascimento, morto ao trocar tiros com a polícia. Aprendeu a se virar na rua como pudesse. Começou a roubar cedo, foi para instituições de reabilitação de menores e para duas penitenciárias estaduais. – Se esses três otários tão pensando que o neguinho aqui vai apanha quieto tão enganado. Já soquei neguinho maior na cana.
Ricardo parou e colocou as mãos nos bolsos da calça. Tentou parecer o mais pacífico possível. Os homens chegaram bem perto e o ruivo do meio, com um martelo de ferreiro na mão perguntou. – O que quieres mouro?
Ricardo achou o sotaque estranho. Não parecia português. – Carai. Os caras são do México!? Mais que merda. – Precisava pensar em uma resposta rapidamente. – Estou procurando trabalho.
Os três olharam um para o outro. – Trabajo? Para usted? Qué sabes hacer mouro?
Ricardo não sabia espanhol mas conseguiu entender a pergunta. Lembrou das aulas que teve na penitenciária toda terça-feira, onde aprendiam a trabalhar com cerâmica. – Sei fazer vasos de cerâmica, telhas, copos e canecas.
– Cerámica. Que sabes hacer con cerámica?
Ricardo entendeu a pergunta, mas percebeu que eles não entenderam o que ele havia dito. Começou a gesticular, fazendo mímicas. Fez o gesto de se colocar água em um copo e beber, enquanto repetia as palavras. – Copo. Caneca.
– Si. Taza. Una taza de cerámica.
Ricardo pensou um pouco, tentando memorizar as palavras e formar um dicionário português-espanhol em sua mente. – Taza. Taça. Copo. Caneca. Eles chamam de taza. Faz sentido. – Isso. Tazas de cerámica.
O lenhador então perguntou. – Sabes hacer floreros de cerámica e azulejos para techos?
Ricardo tentava entender o que o homem havia pedido. “Floreros” deviam ser locais para colocar flores, talvez fosse a palavra em espanhol para vazos. Mas “azulejos para techos”. Não fazia idéia do que seria “techos”, mas sabia fazer azulejos. – Sim. Sei sim.
Com muito custo, Ricardo combinou com o lenhador um salário e um local para dormir. O lenhador o levou até o andar de cima do estábulo. Em meio aos fenos havia um espaço vago. Lá ele poderia dormir e se lavar. Não teria luxo e pelo visto o trabalho seria duro. As ferramentas eram rudimentares.
Ricardo pensava sozinho. – Vou ficar bem na surdina. Vou tentar ficar bem escondido e torcer para ninguém me ver. Trinta dias passa rapidinho e ai eu volto pro mato, sigo a trilha e volto para casa. – Ricardo deitou-se para dormir. Estava muito cansado por ter andado o dia todo e ainda estava muito confuso. Ficava constantemente pensando em como poderia ter chegado ali. Lembrava de ter deitado em sua cela como fazia todas as noites. Depois sua mente parecia recordar de alguém entrando na cela no meio da noite. A imagem de alguns guardas na cela, mas não lembrava de ter acordado e de ser levado para lugar nenhum. Ficou se perguntando como teria saído de sua cela e chegado no meio de uma floresta, com roupas de pano bem fino e antigo e perto de uma cidade do interior sem luz e sem telefone.
Seu braço não parava de coçar. Tirou a blusa e viu um círculo avermelhado em seu braço. Parecia sangue pisado. Não entendia como aquela marca viera parar em seu braço, mas para ele não fazia diferença, todo aquele lugar era um mistério. Queria dormir para descansar. Em sua mente, esperava que estivesse de volta em sua cela ao acordar e que tudo teria sido um pesadelo.
Chegou à margem da floresta. Escondeu-se atrás de uma enorme árvore para observar as pessoas antes de ser visto. As pessoas vestiam-se com roupas simples, parecidas com as suas. Eram vestidos, calças e blusas de aparência muito antigas. Pareciam medievais. As casas eram de madeira e barro, com os telhados também de madeira ou de palha. Haviam porcos, galinhas e cavalos para todos os lados. – Que inferno. Me largaram em alguma cidade do interior. Olha as roupas desse povo. Parece um monte de trapo. – Procurou por fios de telefone e de luz, mas não encontrou nenhum.
Subiu na árvore e repetiu o ritual. Descascou uma parte dela para poder escrever. Ao invés de escrever seu nome, resolveu anotar a quantidade de passos pois no futuro poderia esquecer ou confundir-se. – 20 X 1000.
Desceu da árvore e saiu lentamente da floresta. Todos da cidade pararam seus afazeres e começaram a olhar em sua direção. Começou a sentir-se um inseto. Era como se estivesse encolhendo. Todos olhavam para ele como se ele fosse um monstro ou uma aberração. Foi então que percebeu, todos na cidade eram brancos. Não sabia mais se estavam olhando para ele por ser um estranho saído do meio da mata ou por ser pardo. Falou consigo mentalmente. – Qual é? Esses branquelo nunca viram um moreninho não!? Bando de racistas dos inferno.
As mulheres mandavam os filhos pequenos entrarem. Todos foram deixando as ruas e entrando para as suas casas. Três homens altos, bem fortes, com martelos e machados vieram em sua direção. – Pronto. Ferrô. Nem fiz nada e lá vem encrenca. – Pensou Ricardo.
Ricardo nunca teve vida fácil. Vivendo desde nascido na favela do Paraisópolis, já vivera de tudo. Já havia passado muita fome junto da mãe e dos três irmãos. O pai morrera antes de seu nascimento, morto ao trocar tiros com a polícia. Aprendeu a se virar na rua como pudesse. Começou a roubar cedo, foi para instituições de reabilitação de menores e para duas penitenciárias estaduais. – Se esses três otários tão pensando que o neguinho aqui vai apanha quieto tão enganado. Já soquei neguinho maior na cana.
Ricardo parou e colocou as mãos nos bolsos da calça. Tentou parecer o mais pacífico possível. Os homens chegaram bem perto e o ruivo do meio, com um martelo de ferreiro na mão perguntou. – O que quieres mouro?
Ricardo achou o sotaque estranho. Não parecia português. – Carai. Os caras são do México!? Mais que merda. – Precisava pensar em uma resposta rapidamente. – Estou procurando trabalho.
Os três olharam um para o outro. – Trabajo? Para usted? Qué sabes hacer mouro?
Ricardo não sabia espanhol mas conseguiu entender a pergunta. Lembrou das aulas que teve na penitenciária toda terça-feira, onde aprendiam a trabalhar com cerâmica. – Sei fazer vasos de cerâmica, telhas, copos e canecas.
– Cerámica. Que sabes hacer con cerámica?
Ricardo entendeu a pergunta, mas percebeu que eles não entenderam o que ele havia dito. Começou a gesticular, fazendo mímicas. Fez o gesto de se colocar água em um copo e beber, enquanto repetia as palavras. – Copo. Caneca.
– Si. Taza. Una taza de cerámica.
Ricardo pensou um pouco, tentando memorizar as palavras e formar um dicionário português-espanhol em sua mente. – Taza. Taça. Copo. Caneca. Eles chamam de taza. Faz sentido. – Isso. Tazas de cerámica.
O lenhador então perguntou. – Sabes hacer floreros de cerámica e azulejos para techos?
Ricardo tentava entender o que o homem havia pedido. “Floreros” deviam ser locais para colocar flores, talvez fosse a palavra em espanhol para vazos. Mas “azulejos para techos”. Não fazia idéia do que seria “techos”, mas sabia fazer azulejos. – Sim. Sei sim.
Com muito custo, Ricardo combinou com o lenhador um salário e um local para dormir. O lenhador o levou até o andar de cima do estábulo. Em meio aos fenos havia um espaço vago. Lá ele poderia dormir e se lavar. Não teria luxo e pelo visto o trabalho seria duro. As ferramentas eram rudimentares.
Ricardo pensava sozinho. – Vou ficar bem na surdina. Vou tentar ficar bem escondido e torcer para ninguém me ver. Trinta dias passa rapidinho e ai eu volto pro mato, sigo a trilha e volto para casa. – Ricardo deitou-se para dormir. Estava muito cansado por ter andado o dia todo e ainda estava muito confuso. Ficava constantemente pensando em como poderia ter chegado ali. Lembrava de ter deitado em sua cela como fazia todas as noites. Depois sua mente parecia recordar de alguém entrando na cela no meio da noite. A imagem de alguns guardas na cela, mas não lembrava de ter acordado e de ser levado para lugar nenhum. Ficou se perguntando como teria saído de sua cela e chegado no meio de uma floresta, com roupas de pano bem fino e antigo e perto de uma cidade do interior sem luz e sem telefone.
Seu braço não parava de coçar. Tirou a blusa e viu um círculo avermelhado em seu braço. Parecia sangue pisado. Não entendia como aquela marca viera parar em seu braço, mas para ele não fazia diferença, todo aquele lugar era um mistério. Queria dormir para descansar. Em sua mente, esperava que estivesse de volta em sua cela ao acordar e que tudo teria sido um pesadelo.
O próximo capítulo será publicado no dia 24/09/2007.
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1 comentários: Responses to “ ALA L - CAPÍTULO I - Acordando na floresta ”
By Tâni Falabello on 5 de dezembro de 2007 às 01:20
Marco, gostei bastante do primeiro capítulo (o que eu li até agora). A maneira do linguajar simples da personagem contrastando com a narração e o linguajar dos espanhóis ficou muito bom. Gostei mesmo.
E a história parece empolgante!
Quando eu ler mais faço outros comentários. Mas promete!
Sucesso!
Um abraço,
Tâni Falabello
www.rosaimortal.tk