Ala L - Capítulo IX - A tortura de Severino
Written by Marco Antonio Mendes Ferreira on 19:06
Apesar da dor, Severino tentava refletir sobre o que estava por vir. Uma morte lenta e dolorosa tornava-se cada vez mais evidente diante daquela situação. A fuga de Ana obrigava-os a agir rapidamente, eliminando qualquer prova contra eles, ou seja, matá-lo. Sua única esperança parecia ter conseguido escapar às garras do doutor Rubens. Precisava ganhar tempo se quisesse ter alguma chance de sair vivo daquele local. Ana com certeza traria reforços.
Rubens aproximou-se novamente da cadeira. - Então. Vais me dizer o que quero saber ou não?
Severino estava ofegante. - Ela é o menor dos seus problemas.
As risadas de Severino inundaram o recinto, deixando todos incrédulos com a imagem de um homem amarrado e com o dedo esmagado rindo de seus algozes.
A fúria do doutor crescia como lava prestes a ser expelida da cratera de um vulcão. O rosto do médico ficou vermelho. - Não tenho tempo para conversas meu jovem.
Com um taco de baseball, Rubens canalizou toda a sua raiva, desferindo um potente golpe no ombro direito de Severino, quebrando sua clavícula. Enquanto Severino gritava de dor, o médico ficou do seu lado direito e novamente acertou Severino com o taco repetidas vezes, todas em sua coxa direita. Um hematoma enorme surgiu imediatamente. Em seguida, o médico posicionou-se do lado esquerdo e repetiu a agressão na coxa esquerda.
- Quem é essa mulher?
Severino estava cansado e sentindo muita dor por todo o corpo. Respirava apressadamente tentando, de alguma forma, minimizar seu sofrimento e controlar a adrenalina. Não podia contar tudo para o médico, mas também não podia ficar calado. Sabia que precisava de tempo, do contrário não aguentaria aquele castigo por mais tempo.
- Fale homem ou a próxima tacada será em sua boca.
- Eu falo. Eu falo.
- Ótimo. Quem é ela?
Cada segundo era precioso, tanto para recuperar o fôlego quanto para Ana trazer reforços. - Eu e ela somos policiais.
- E o que investigam?
- O assassinato de presos em penitenciárias.
- Assassinatos?
- Isso. Ou vai me dizer que os presos que sumiram realmente fugiram?
- E por que eu mataria presidiários e simularia suas fugas?
- Para vender seus órgãos no mercado negro.
- Hahahahaha. - Doutor Rubens começou a gargalhar na sala. Severino aproveitava cada segundo para respirar e assimilar as dores. Sabia que aquilo não havia acabado ainda.
- Não tenho mais tempo para esse joguinho. Você já me disse tudo que eu precisava saber. Agora chegou a hora de me livrar de você.
Sua hora havia chegado. Rubens havia engolido sua mentira cedo demais. - Matar um policial só vai aumentar a sua pena.
- Não serei preso meu caro.
- Temos provas contra você. Você mesmo viu o meu trailer e as câmeras de segurança. Temos tudo gravado.
- Não seja tolo meu jovem. Vocês não possuem nenhuma prova contra mim.
- Quer apostar sua vida como tenho?
O doutor virou-se em direção a Severino, ficando com seu rosto próximo ao dele. - E você? Quer apostar a sua?
Afastando-se com um sorriso no rosto, o doutor Rubens refletiu por alguns segundos. - Tudo que você tem meu jovem são filmes do que se passou fora do laboratório. Para me incriminar, teria que possuir alguma gravação do que se passou aqui dentro, coisa que você não tem.
- Está tão certo disso? Como você acha que meu trailer possui energia elétrica para todo aquele equipamento?
Severino sentiu o clima ficar tenso. O doutor parecia estar ficando preocupado. Essa era a oportunidade que precisava para ganhar tempo e rezar para que Ana já estivesse a caminho. Falando pausadamente, com respirações vagarosas e aproveitando a surra que tomou, Severino percebeu como prender a atenção dos dois. - Quando o laboratório estava sendo construído eu já estava infiltrado.
- Estava aqui como pedreiro e passei vários conduítes por todos os pontos do laboratório, espalhando câmeras por toda parte.
Incrédulo, o doutor ficava cada vez mais irritado. - Mentira. Isso é impossível.
- Eu vigiava vocês o tempo todo. Todos os dias. E a cada visita, Ana levava um hard disk embora com as cenas gravadas pelas câmeras escondidas.
Severino simulava dificuldades para falar, respirando profundamente e pronunciando as palavras pausadamente. - Você e sua equipe serão presos.
- Mentiroso. - Gritava o doutor.
- Vocês serão presos pelo assassinato dos presos e por venderem seus órgãos. maldito.
O rosto do doutor acalmou-se. A visível imagem de fúria deu lugar a um rosto pensativo e sereno. - Acabas de assinar sua sentença de morte. Se você realmente tivesse câmeras no interior de meu laboratório saberia que não fiz nada disso.
O médico deixou o taco cair no chão e em seguida sacou uma pistola que trazia escondida nas costas. - Vocês não possuem nada contra mim pois os presos ainda estão vivos, mas você irá morrer. Sua hora chegou meu caro.
- Onde estão eles então? Que experiências malditas vocês fizeram com eles aqui dentro?
- Já que vais morrer mesmo, então vou deixar que saibas o que aconteceu com eles.
Severino respirou fundo. A morte era eminente. Nem sinal de Ana e com certeza a narração seria rápida. Precisava pensar em algo.
- Eu criei a primeira máquina de viagem no tempo. Utilizei os prisioneiros como cobaias para me certificar que a máquina realmente funcionava. E funciona. Nesse momento temos dois prisioneiros no passado em épocas diferentes.
O cientista andava pelo recinto e demonstrava estar maravilhado com sua criação enquanto narrava as experiências para Severino. - Para aumentar as chances de sobrevivência deles no passado, desenvolvemos um programa de aulas que lhes ensinasse profissões existentes naquela época, como construir vasos, copos e telhas com barro.
- Então a escola também é uma fachada?
- Fachada não é a resposta correta. Eles realmente aprendem na escola. Mas o ensino é induzido.
- Induzido quanto?
- As aulas de informática são mínimas. Para que vou ensinar-lhes informática se não temos computador no passado?
- Por isso existem tantas aulas de história e idiomas?
- Exatamente. As aulas de história são as mais importantes do projeto e por isso são cuidadosamente preparadas. Nelas nós passamos todas as informações necessárias sobre uma determinada época ou, mais precisamente falando, sobre um evento específico. Assim, o melhor aluno naquela matéria é o escolhido para ser enviado para lá.
Embora estivesse realmente interessado em descobrir o que eles estavam fazendo com os presos, sua maior preocupação era em permanecer vivo. Quanto mais Rubens falasse, mais tempo teria. - E qual a finalidade dessa experiência?
- O objetivo maior era criar tal tecnologia e testá-la. Mas como cientista, pensei em verificar se era possível preparar as cobaias para sobreviverem no passado.
- Para que isso?
- Imagine estabelecer uma base no passado em uma época específica onde o conhecimento atual nos dê uma vantagem competitiva frente as demais empresas.
- Ficar rico.
- Claro. Para que mais seria?
- Quem sabe impedir uma guerra mundial.
Rubens parou em frente a Severino com Rafael à suas costas e cruzou os braços. A arma estava em sua mão direita. - Guerras são inevitáveis meu caro. Faz parte da natureza humana destruir seus semelhantes. Por falar nisso, chegou a sua hora.
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