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Outros autores - Café da Manhã no Inferno

Written by Marco Antonio Mendes Ferreira on 18:52

Talvez tivessem sido a solidão e o abandono ou vários anos de reclusão em um orfanato católico, sofrendo abusos diários de todas aquelas santidades. Ou foram as lembranças daquela infância perturbadora ou a total falta de infância. Mas descobrir a causa já não faz diferença, não muda a história, o fato é que ela havia enlouquecido.

Ninguém sabia seu nome, e duvidavam que ela mesmo soubesse. Chamavam de “a magra”, quando precisavam se referir àquela criança que ficava horas abraçada a um pedaço de pano sujo, olhando pela única janela da construção que dava a lugar nenhum, apenas a terra estéril dos fundos do orfanato, onde não se via nada além árvores mortas e madeira podre.

Ela não falava, nem mesmo quando precisava ir ao banheiro ou quando sentia fome, e por isso a odiavam. Odiavam olhar aquela criatura demasiada branca e pequena de olhos fundos. Odiavam aquele silêncio, quando a batiam no rosto por demorar demais à mesa na hora do almoço. Odiavam ainda mais a falta de sentimento quando a tratavam como um aborto mal-feito, quando insinuavam que ela era filha de alguma prostituta que morreu de herpes. Mas o que odiavam realmente, mesmo nunca tendo admitido, era o pavor que ela causava. Não era apenas aflição, nem um medo qualquer, era o mais puro pavor. Ela exalava angústia, morte. Era o medo que eles mais odiavam.

...

Como todas as mãnhas, ela acordou e se vestiu. Agarrada a seu pedaço de pano imundo, seguiu pelos corredores até o refeitório. Ela não andava pelos corredores como as outras crianças: ela quase deslizava, leve e sem fazer o menor ruído, como cadáver que se desfez de todo o peso que continha, mas continuava a vagar. Com seus olhos turvos e cinzentos, olhando para frente como se pudesse atravessar as portas e paredes no caminho.

Tinha tomado metade da sua xícara de café e estava prestes a morder sua torrada, quando um grito agudo invade o refeitório, fazendo todas as cabeças se levantarem e olharem em volta, procurando a garganta autora do grito, quando a cozinheira Ana aparece por tras das portas da infecta cozinha. As cores haviam sumido de seu rosto e seus lábio estavam distorcidos em uma terrível careta. Parecia estar prestes a descarregar um turbilhão de palavras, mas quando sua boca se abriu, um jorro fétido de vômito se espalhou pelo chão de mármore. As crianças se afastaram da cena, com medo e com nojo do que viam. Depois de colorir o chão com restos de seu café da manha, Ana desmaiou. Foi amparada pelos inspetores que estavam tomando o desjejum, e pelos que entraram correndo no refeitório depois de ouvir seu grito horrendo. Todos se perguntavam o que teria causado aquela reação, estavam tão atônitos que só se lembraram da jovem ajudante de cozinha ao ouvirem seus soluços chorosos, entre uma exclamação e outra. Demoraram alguns minutos para entender suas palavras...
“-Seus corpos... horrível... pedaços no molho... estavam no freezer, ela os comeu... não teve intenção...”
Foi deixada no chão e continuou a balbuciar frases desconexas enquanto os inspetores entravam na cozinha.
No fogão aceso, grandes panelas cozinhavam carne. Tripas, olhos emergiam e tornavam a afundar, tornando a cena um tanto desagradável. Seguiram cautelosos para o freezer aberto. Alguns dos que estavam na frente congelaram, incapazes de se mover. Alguns soltaram gritos vacilantes e voltaram correndo por onde haviam vindo. Haviam corpos, ou parte deles. As cabeças de 3 crianças estavam enfileiradas em uma das prateleiras. Tão pálidas e com uma feição tão calma, como se estivessem dormindo em suas camas e não arrancadas de seus corpos, congeladas em um freezer industrial.

Alguns corpos estavam abertos: um enorme T desenhado em seus abdomens vazios. Quem fizera aquilo, quem os matara com um único corte na jugular, havia também extraído com precisão cirúrgica todos os órgãos internos das vítimas. E a pobre Ana, a cozinheira, os teria achado na geladeira menor, que ficava ao lado do freezer, e teria cozinhado todos. E temperou as víceras das crianças, experimentou, salgou um pouco mais os miúdos de seus companheiros e tornou a experimentar. Quando foi ao freezer retirar outras carnes, não demorou nem um milésimo de segundo para gritar, e sentir a ânsia do canibalismo subindo por sua garganta.

Quando Ana começou a se recuperar do desmaio, ainda estava no chão do refeitório. A notícia havia se espalhado e o mais perfeito caos reinava na sala, ecoando nos gritos de quem havia visto os corpos, no choro das crianças, em desespero, com a imagem de seus amigos mortos e congelados. Em todo o salão reinava o desespero. Então Ana fixou seus olhos lacrimosos em um banco, onde a única criança ridiculamente pálida continuava tomando seu café da manha. “A Magra”, pensou ela. A menina continuava calmamente sentada em seu lugar habitual, de fronte a janela do pátio vazio, mastigando sua torrada, e Ana jurou ter visto um breve sorriso estampando naquele rosto morto, quando os olhos negros e vazios da menina se encontraram com os seus. Ana tentou conter o grito, mas foi incapaz: sentiu um frio escorregadio na espinha, como se uma criança travessa tivesse jogado gelatina dentro de suas roupas...
Nas mãos daquela frágil criança se encontrava o velho pano imundo, encharcado em um fluído marrom-avermelhado: Sangue. E seu riso histérico agora ecoava no refeitório. O riso incontido de uma criança ganhando presentes de natal. O riso de uma criança coberta de sangue.

Por Charlotte Liadan Désirée.
e-mail para contato: brunalc03@gmail.com

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