Ala L - Capítulo VIII - A prisão de Severino
Written by Marco Antonio Mendes Ferreira on 14:07
Ricardo não podia demonstrar dúvidas, do contrário Raul podia ficar desconfiado e mudar a forma de interrogatório, utilizando métodos um pouco mais violentos. - Diga que vi o rosto deles. Não cheguei a ver eles.
Joaquim ficou indignado com os erros de português cometidos por Ricardo, mas não era prudente conversarem. Joaquim estava ali para traduzir fielmente o que Ricardo dissesse. - Gajo. Ele não acreditou em vós. Perguntou como assim? Não tentou olhar nenhuma vez?
- Diga que eu estava em um lugar seguro. Não iria arriscar ser encontrado e acaba morto. Onde eu tava não tinha como ser visto e como não sabia exatamente onde eles estavam, qualquer movimento poderia mostrar onde eu tava e eles podiam me matar.
Joaquim traduziu as palavras de Ricardo corrigindo seu péssimo português. Raul, pensativo, cruzou os braços levando uma das mãos ao queixo enquanto andava de um lado para o outro. Seu semblante era enigmático. Parecia que milhares de pensamentos percorriam seu cérebro. Era impossível imaginar o que ele poderia estar pensando. Ricardo nervoso rezava para que ele tivesse acreditado.
Raul estava prestes a dizer algo quando bateram na porta. - Quién?
A porta abriu e um soldado entrou andando apressado, foi em direção a Raul e cochichou algo em seu ouvido. Em seguida retirou-se e fechou a porta. Raul foi em direção a porta e abriu-a. Em seguida ordenou que colocasse os dois prisioneiros isolados em uma das celas do andar superior e saiu. Os soldados desamarraram Joaquim e levaram os dois para a cela.
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Severino ainda sentia a cabeça doendo. A pancada havia sido forte. Não sabia por quanto tempo teria ficado desacordado. A sala não possuía janelas, apenas uma porta sem maçanetas e um interruptor na parede. Seus braços e pernas estavam amarrados à cadeira. Não conseguia se soltar.
Algumas horas depois o Dr Rubens e Rafael entraram. Rubens parecia muito irritado enquanto Rafael parecia preocupado e um pouco desorientado. Logo atrás deles, dois guardas do laboratório entraram trazendo duas cadeiras e outros dois empurrando uma espécie de maca. O lençol que a cobria impedia que Severino pudesse ver o que ela carregava, mas pareciam aparelhos eletrônicos. Os dois guardas que trouxeram as cadeiras saíram, fechando a porta. Os outros dois permaneciam parados um de cada lado da maca, com os braços para trás, a cabeça erguida e os olhos fixos no teto.
Já acomodado em sua cadeira, Dr Rubens acendeu um charuto, cortando a ponta com um cortador especial que ele carregava no bolso. - Muito bem meu jovem. É você quem vai decidir suas condições físicas enquanto conversamos... mas sairei daqui sabendo tudo que quero saber.
Severino estava tranquilo, mas se fazia de assustado. - Não sei do que o senhor está falando senhor.
Rubens apenas olhou para os guardas acenando com a cabeça, imediatamente os dois removeram o lençol que cobria o móvel trazido por eles. Haviam aparelhos eletrônicos cuja função era aplicar choques elétricos. Várias seringas e frascos de vidros contendo um líquido transparente como água. Alguns objetos cortantes como bisturi. Severino sabia que seria torturado, mas não podia revelar o que sabia ou quem era.
- Tem certeza disso meu jovem?
- Sim senhor.
Dr Rubens começou a tirar o paletó calmamente enquanto falava com Severino. - Muito bem então. - Em seguida, começou a dobrar as mangas da camisa e colocar duas luvas brancas. Olhava para o móvel e seus objetos com prazer nos olhos. Parecia procurar algo especial entre todos eles. Vagarosamente, passava a mão sobre os objetos afastando-os para um lado e para o outro. Sua intenção era tentar deixar Severino o mais nervoso possível, enquanto ele ficava cada vez mais calmo. - Aqui está.
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Assim que a porta se fechou, Ricardo e Joaquim começaram a conversar na cela. - O gajo. Por que tu me meteste nessa encrenca?
- Calma Joaquim. Não vai pegar nada pro teu lado.
- Tu precisas melhorar sua fala. Não entendi nada que tu dissestes.
- Eu disse que você não precisa ficar preocupado. Não vai acontecer nada com você.
- Isso é o que tu pensas. Comandante Raul não é nada bobo. Ele é tão bonzinho quanto é baixo.
- Baixo? Mas o cara é alto pacas.
- Por isso mesmo rapaz. De bom ele não tem nada.
- Entendi. Mas não tenho o que fazer. Não consigo falar com esses caras ai não. Não entendo o que eles falam e eles não me entendem.
- Nem eu lhe entendo as vezes.
Joaquim deitou-se reclamando. Ricardo ficou sentado lembrando da cadeia. Lembrou-se de quando inauguraram a ala nova, a ala do hospital. Todos os presos foram levados para o pátio para ouvir um senhor de cabelos grisalhos e jaleco branco prometer que daquele dia em diante eles teriam tratamento médico descente e ensino de qualidade. Que poderiam assistir aulas profissionalizantes. Lembrou que todos ficaram contentes. Até tratamento dentário eles receberam. Mas com o tempo começaram as mortes. Presos que pareciam bem de saúde adoeciam do dia para a noite e, alguns dias depois, morriam vítimas de algum vírus ou infecção generalizada.
Ao lembrar disso, uma lágrima percorreu o rosto de Ricardo até encontrar a ponta de seu queixo e cair sobre a palha que formava seu colchão. - "O que será que falaram de mim para o pessoal? Do que será que eu morri?" - Pensou Ricardo.
Ricardo começava a lembrar das aulas de história onde o professor falava da Espanha, Inglaterra e Portugal. Não entendia porque eles eram tão rigorosos com essas matérias. Mas agora estava claro. Estavam sendo preparados para as viagens. Precisavam conhecer bem o local para onde iriam. Lembrou das aulas de culinária e das aulas de trabalhos com barro fazendo telhas, pratos, vasos, copos e objetos para decoração. As aulas de pintura desses objetos fazendo tintas com plantas, terra e farelos de pedras coloridas.
Estava sendo preparado para a experiência de sobreviver trinta dias no passado. - "Será que é algum treinamento de super soldado?"
Ricardo não conseguia organizar seu raciocínio, apenas lembrava das coisas que aconteceram após a instalação daquele hospital na penitenciária. Suas lembranças não eram cronológicas. Por fim, lembrou-se dos poucos instantes que sua memória havia gravado da noite em que foi retirado de sua cela e enviado para aquele lugar. - "Se eu pegar aquele velho maldito." - Sua mente foi tomada por pensamentos de vingança. Queria colocar as mão naquele velho e sujar seu jaleco de vermelho.
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Raul entrou na sala do trono com passadas rápidas. - Majestade.
- Como foi a conversa com nosso hóspede?
- Aparentemente ele não viu o rosto dos conspiradores.
- Isso é possível Raul.
- Acredito que sim majestade. Ele alega estar escondido quando duas pessoas começaram a falar sobre a morte de Maria Stuart.
- Você acredita nele Raul?
- Sim majestade. Se eu fosse um escravo foragido também não iria arriscar ser pego para ver os assassinos de uma pessoa que não conheço.
- Mas se ele não a conhecia, como sabia que era minha amiga?
Raul ficou confuso. - Como assim majestade?
- O guarda informou que o escravo alegou que uma amiga do rei seria assassinada.
- Talvez os dois homens tenham comentado na floresta.
- Pode ser. É o mais provável. Mas deixemos as deduções de lado. Extraia do escravo a resposta a essa pergunta, sim!?
- Sim majestade.
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Severino estava preso a cadeira com cordas, mas seus pés, os quais estavam sem calçado e sem meias, e suas mãos estavam bem presos por fitas adesivas. Era impossível soltar-se ou até mesmo mover os pulsos. Estava apreensivo com o que o médico teria pego. Assim que ele acabou de girar o corpo, Severino pôde ver um alicate em sua mão.
Dr Rubens aproximou-se de Severino vagarosamente enquanto seus olhos pareciam idolatrar a ferramenta em sua mão. - Muito interessante esse alicate. Uma vez que você comece a apertá-lo, ele só solta se você apertar até o final ou apertar esse pequeno botãozinho para destravar. Você já havia visto um alicate assim?
Severino olhou para o médico com desdem. - Claro. Sou faxineiro e pedreiro.
- Pelo equipamento que encontramos no seu trailer, me parece que você trabalha com muitas outras coisas também.
Severino ficou calado. O velho era muito perspicaz e inteligente. Precisava relaxar e colocar seus pensamentos em ordem. Sabia que seria torturado. Se havia uma maneira de fugir disso seria usando de muita psicologia, esperteza e muita presença de espírito.
- Então meu caro. Para que todo aquele equipamento?
- Espionagem.
Dr. Rubens acertou um golpe potente, batendo com a ponta do alicate na clavícula de Severino. - Parece que existem várias maneiras de se utilizar esse alicate.
Severino sentia uma dor enorme. Sua respiração acelerou na tentativa de assimilar o golpe. O médico aproximou o rosto do ombro machucado de Severino e com uma voz muito calma, sem exaltação, falou baixo. - Agora que sabemos que era por causa de espionagem e não porque você estava entediado com a programação da televisão. O que você estava espionando meu caro?
- A penitenciária.
A segunda pancada foi nas costelas e com o dobro da força. Severino não aguentou e soltou um gemido rouco e contido, mas a dor fora tanta que sua fisionomia e seus gemidos, por mais baixos que fossem, denunciavam a eficiência do golpe. Dr Rubens sabia o que fazia e apesar da idade era forte o suficiente para causar muito estrago. A dor impedia o raciocínio, mas o toque do celular do doutor lhe deu o tempo que precisava.
- Alô... Como assim fugiu? Para onde ela foi?
A voz do médico tornava o descontentamento evidente. - Recolham os corpos e voltem para cá imediatamente.
Após um breve silêncio, o tom da voz mudou de descontente para irritado. - Polícia? Como ela chegou antes de vocês? Imbecis.
Dr Rubens desligou o celular. Alguém iria pagar por aquilo e Severino já fazia idéia de quem seria. Com o médico à suas costas, tentou preparar seu corpo para receber a próxima pancada, no entanto, foi surpreendido pelo médico que surgiu velozmente, segurou sua mão esquerda e apertou seu dedinho com o alicate exatamente na junção que permite que o dedo dobre.
Severino começou a gritar de dor. Dr Rubens parou diante dele e ficou apreciando seus gritos com um olhar de raiva. Era nítido em seu semblante que Severino não significava nada para ele. Seria possível dizer que ele era desprovido de sentimentos se não fosse pelo visível descontentamento estampado em seu rosto. - Quem é essa mulher?
Severino ignorava a pergunta e continuava a gemer de dor. O médico voltou a segurar a mão presa de Severino e apertou um pouco mais o alicate. Os gritos de Severino aumentaram, assim como a dor. - Quem é essa mulher?
Severino cuspiu no rosto do médico o qual apertou o alicate com tanta força que o mesmo chegou ao final e abriu-se, esmagando completamente o dedo de Severino. Depois afastou-se enquanto Severino urrava e sacudia o corpo, quase derrubando a cadeira. A dor beirava o insuportável. Os gritos de dor assustaram Rafael que foi obrigado a disfarçar seus sentimentos para que o Dr Rubens não percebesse.
Quando os gritos começaram a parar, o médico aproximou-se novamente de Severino, segurou seus cabelos e puxou sua cabeça para trás. - Adivinha qual a próxima coisa que vou esmagar com esse alicate?
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1 comentários: Responses to “ Ala L - Capítulo VIII - A prisão de Severino ”
By Jonatas Tosta on 13 de janeiro de 2008 às 14:35
Cara, a tirada de personagens extremamente brasileiros, como o pedreiro severino é ótima. Muito Brasil mesmo. É o que tenho mais gostado na história ( além das notórias lufadas de violência...^^)