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Pequenos contos - Piedade Jonas

Written by Marco Antonio Mendes Ferreira on 18:44

Jonas andava pela noite de São Paulo envolto em seus pensamentos. Seu desespero e sua tristeza eram sua prisão. Pensava em voz alta. - "Por que eu fui assistir essa droga de programa? Nunca assisto televisão. Por que hoje? Por que justo hoje? Será que é um sinal?"

A imagem de sua mãe na reportagem sobre pessoas desaparecidas, com uma foto sua na mão, era desesperador. Chorava capciosamente. As lágrimas umedeciam seu rosto mais do que a pequena garoa que insistia em permanecer na cidade, como de costume.

Sabia que não podia voltar para casa. Não podia colocar a vida de seus familiares em risco. Eles não podiam passar por aquilo. Não entenderiam. Era melhor acharem que ele estava morto.
O ódio tomava conta de seus pensamentos. Ódio daquele que o colocou naquela situação. Iria acertar as contas com ele.

Em seguida voltou a pensar na dor de sua mãe. Preferia que ela acreditasse que ele havia morrido, talvez assim não sofresse.

Sem preocupações e sem medos, Jonas caminhava pelo Largo Treze de Maio, acabara de passar pela igreja e descia rumo ao terminal de ônibus.

Sua coturno e seu sobretudo preto de couro estavam ensopados. Parte da calça de brim preta também. A única peça de roupa seca era a camiseta, protegida pelo casaco.

De repente, sem que Jonas percebesse, dois garotos apareceram e anunciaram um assalto. - Ai. Perdeu boy. Perdeu. Já era.

Jonas olhou para os dois jovens calmamente e parou, sem tirar as mãos dos bolsos nem dizer nada.

- Vai maluco. Passa a grana e o casaco.

Ausente de emoções, Jonas respondia a tudo calmamente. - Não tenho dinheiro nenhum.

- Ai o comédia. Passa a grana senão vou passar você otário.

- Já disse que não tenho dinheiro nenhum.

Os dois meliantes estavam nervosos. Sabiam que viaturas da polícia militar passavam constantemente por ali. Precisavam ser rápidos. - Vai cara. Apaga esse otário. - Disse o rapaz desarmado para seu comparsa.

- Ai muleque. Passa a grana agora ou já era. Vai.

Jonas só pensava em sua mãe. Foi então que algo macabro cruzou seus pensamentos. De repente, sua fisionomia mudou. Sua aparência calma e despreocupada deu lugar a um rosto amedrontado. - Por favor. Não me mate. Não tenho dinheiro. É verdade.

Jonas falava descontroladamente com as mãos à frente do rosto como se tentasse protegê-lo do disparo. - Piedade. Piedade.

O assaltante ficou furioso. - Piedade? Minha terceira bala se chama piedade.

Dito isso disparou duas vezes contra a barriga de Jonas que envergou o corpo, sentindo os projéteis perfurarem sua barriga. Em seguida, o bandido apontou a arma novamente para Jonas e disse. - Essa é a piedade.

Jonas ergueu o corpo para que o tiro pegasse no peito e não no rosto. Não podia levar um tiro no rosto.

Assim que foi atingido, seu corpo tombou pesadamente. Os dois marginais retiraram o sobretudo e correram. Entraram em uma rua e esconderam a arma no telhado de uma casa abandonada. Em seguida o rapaz que efetuou os disparos vestiu o sobretudo e ambos seguiram caminhando conversando. Pouco mais de cem metros depois, ouviram uma voz. - Esse casaco é meu.

Viraram-se imediatamente mas não viram nada. A rua estava deserta. - Você ouviu isso?

- Ouvi. Era a voz do cara.

- Deve ser nossa cabeça. Vamo embora.

Quando viraram-se novamente, pararam incrédulos. Ali estava ele, o coturno, a calça preta e a camiseta branca suja de sangue. A pele branca. Mas o rosto não era o mesmo. Ao invés daquele garoto bonito de traços finos, olhos escuros e pele pálida, estava o rosto de um demônio com presas enormes e olhos vermelhos, ardentes. - Esse casaco é meu.

Chorando, o rapaz tirou o casaco apressadamente. - Piedade moço. Piedade. Pelo amor de Deus.

Jonas acertou um potente soco no estômago do rapaz dos disparos, o qual foi ao chão contraindo-se por causa das dores. Simultaneamente, segurou o outro rapaz e cravou os dentes em sua jugular em uma mordida potente e mortal, drenando seu sangue. Com um movimento rápido, arrancou o pescoço do rapaz, cuspindo o pedaço que permanecia em sua boca e deixando o corpo tombar ao seu lado.

O rapaz caído testemunhava aquela cena incrédulo. - Piedade. Por favor. Piedade.

Jonas ficou de frente para o rapaz, abriu a camisa com ferocidade, inseriu três dedos dentro da ferida feita pelo terceiro tiro e retirou o projétil, entregando para o rapaz. - Aqui está ela.

Em seguida, levantou o rapaz pela cabeça como se fosse uma folha de cartolina, cravou os dentes em seu pescoço e sorveu até a última gota.

Olhou para os ferimentos que fechavam-se, vestiu seu sobretudo e foi embora.

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