ALA L - CAPÍTULO II - A prisão
Written by Marco Antonio Mendes Ferreira on 20:43
Ricardo estava tendo um pesadelo. Lembrava dos companheiros de cela e das aulas de história que teve na cadeia. Como todo sonho, os pensamentos eram sem sentido e ausentes de sincronismo de tempo e da seqüência dos acontecimentos. Começou a sonhar com imagens de policiais entrando na cela. Tudo era confuso. De repente, ele acordou assustado. Ficou sentado e se assustou com a pessoa ao seu lado. Era o lenhador que o olhava assustado.
Ricardo dormiu sem camisa e suas tatuagens estavam expostas. O lenhador estava assustado, sem entender o que eram aqueles desenhos. – Qué es esto en tu cuerpo?
Ricardo se pôs de pé rapidamente e vestiu a blusa imediatamente. – Minha tribo. Nós pintamos nossos cuerpos. – Ricardo não sabia espanhol, mas o lenhador acabará de dizer a palavra corpo em espanhol. Tentava aprender o idioma o mais rápido possível. Sabia que a comunicação seria importantíssima.
O lenhador olhou desconfiado para Ricardo, o qual percebeu. – Seguirme mouro. Comamos el desayuno.
Ricardo conseguiu entender tudo, menos a última palavra. Não fazia idéia que ela significava café da manhã, mas percebeu que finalmente iria comer alguma coisa. Ele desceu as escadas logo atrás do lenhador. Ao invés de seguir para dentro da casa, o lenhador foi na direção da rua, saindo do estábulo. Do lado de fora, havia uma mesa bem grande e dois bancos, um de cada lado da mesa, em um espaço coberto. Sobre a mesa estavam algumas vasilhas com pão, carne, mel, maçãs, laranjas e uma jarra com um pouco de leite. – Come mouro. Tenemos mucho trabajo.
Ricardo não se demorou. Mal o lenhador havia terminado a frase, Ricardo já estava sentado e pegando um pouco de leite e algumas frutas. Comia apressadamente, reflexos de uma vida na prisão.
Há muitos anos não comia algo tão gostoso. Ricardo acabou com toda a comida da mesa, tamanha fome que sentia. Em seguida, o lenhador o levou para um galpão ao lado do estábulo e Ricardo começou a trabalhar. O almoço já havia passado a muito e Ricardo continuava cumprindo suas obrigações com eficiência, na verdade, cada vaso produzido era conferido pelo lenhador que ficava espantado com a qualidade do serviço. O estilo de Ricardo era diferente do que eles costumavam produzir.
Quase no final do dia, Ricardo parou para beber um pouco de água e viu alguns homens vestidos com uma roupa de metal parecida com uma armadura. Eram roupas feitas com muitos anéis de metal bem pequenos, entrelaçados.
Por cima dessa roupa, panos com brasões desenhados, botas e um elmo de metal. Traziam um escudo preso às costas e uma espada na cintura.
Eles conversavam com dois homens. Um deles chamou o lenhador que se dirigia lentamente. Ricardo estava curioso e pensou. – Será que é comigo?
O lenhador juntou-se aos quatro que estavam conversando. Ricardo entrou no estábulo, mas continuou observando-os através de um vão entre duas tábuas que faziam parte da parede do estábulo. Os soldados apontavam para a mata, como se explicassem ao lenhador alguma coisa que aconteceu na floresta. Logo em seguida, o lenhador apontou para o estábulo. Nesse momento Ricardo teve certeza, com certeza virão falar com ele.
Por instinto ou costume, procurou onde se esconder. Logo percebeu que não seria possível. Ouviu o som dos cavalos relinchando. Olhou na parede e viu as celas penduradas. Sem hesitar, pegou um pano que estava perto das celas e cobriu o lombo do cavalo, em seguida pegou uma das celas e colocou sobre o pano. Correu de volta para a fresta na parede para verificar o que estava acontecendo. Viu os soldados, o lenhador e os dois camponeses se aproximando do estábulo. Calculou que teria um minuto, talvez um minuto e meio no máximo, antes que eles entrassem pela porta. Correu de volta para o cavalo, prendeu as fivelas da cela e depois colocou a cabeçada e a embocadura no animal. Montou e deu o comando para o cavalo sair.
Os soldados estavam quase chegando na porta quando o cavalo saiu em disparada, quase atropelando os soldados, o lenhador e os camponeses. Ricardo olhou para trás e viu os soldados parados olhando para ele. Um deles levava à boca uma espécie de corneta em forma de chifre.
Ricardo ficou preocupado ao ouvir o som da corneta. – Pra que esse manézão tá tocando essa merda?
De repente, vários soldados começaram a sair de dentro da mata correndo em sua direção na tentativa de parar o cavalo. Ricardo assustou-se, agrediu o cavalo com seus calcanhares na tentativa de fazer com que o animal aumentasse a velocidade. Sua mente borbulhava de pensamentos. Não sabia mais se deveria ter ficado no estábulo ou se fez certo em ter fugido. Sua mente repetia constantemente. – Puta merda. Nem fiz nada. Pra quê fui sair correndo. Burro. Burro. Muito burro.
Deixou muitos soldados para trás, mas como saído de lugar nenhum, um soldado pulou na estrada alguns metros à frente e, balançando os braços levantados de um lado para o outro, gritava para o animal parar. Ricardo tentou desviar do soldado, mas o mesmo percebeu que o cavalo não pararia e, rapidamente, acertou Ricardo com sua maça, uma espécie de clava de ferro cujo cabo é fino como um cano, com uma bola de metal na ponta cheia de espinhos. A arma toda era feita de metal.
Ricardo espatifou-se no chão e imediatamente levou as mãos ao peito que doía muito por conta do golpe recebido. Antes que percebesse, levou um potente chute nas costas. Além da força do golpe, a bota de metal tornou a agressão mais dolorida. Ricardo tentava desesperadamente encher os pulmões de ar.
Quando a respiração começou a voltar ao normal, mais soldados já haviam chegado e já o estavam levantando. De pé, os soldados agarravam suas roupas e faziam várias perguntas simultaneamente. Seguido das perguntas, vieram os tapas e socos no rosto. Ricardo não conseguia entender o que eles diziam. Não sabia espanhol e os soldados falavam ao mesmo tempo e muito rápido. Dentre tudo que fora dito, Ricardo percebeu que alguém havia morrido na mata e ele era o suspeito principal. Mais do que nunca estava arrependido de ter fugido. Como explicaria sua inocência se ele fugiu antes mesmo de ser acusado.
Sua fuga era como uma confissão. Alguns soldados traziam correntes e algemas, as quais foram presas às pernas e aos pulsos. Ricardo continuou sendo interrogado sem entender o que eles diziam e continuava repetindo. – Não falo sua língua.
Depois de muito baterem em Ricardo, os soldados resolveram levá-lo embora. Voltaram para dentro da mata puxando Ricardo pelas correntes presas às enormes algemas de metal que o prendiam.
Depois de horas de caminhada na floresta naquelas condições, Ricardo estava ficando exausto. Avistou alguns soldados alguns metros à frente. Estavam colocando um corpo em uma carroça. Assim que se aproximaram da carroça, Ricardo tentou subir, mas assim que apoiou um dos joelhos na carroça para impulsionar o corpo para dentro, foi atingido no rosto por um soco de um dos soldados. Em seguida o puxaram violentamente para trás, sendo jogado ao solo.
Ainda deitado, percebeu que as correntes que prendiam seus braços foram presas à carroça na qual os soldados começavam a subir. Ou se colocava de pé ou seria arrastado. Reuniu suas últimas forças e se levantou rapidamente.
A floresta deixava a noite muito fria e as roupas de Ricardo eram feitas de panos muito finos. Seu corpo parecia congelar. A carroça seguia pela rua de terra a uma velocidade que obrigava Ricardo a andar apressadamente para não cair.
Algumas horas depois e Ricardo não agüentou. Seu corpo havia chegado à exaustão. Os pés e os pulsos sangravam muito. Acabou desmaiando, mas os soldados não pararam a carroça. O corpo de Ricardo fora arrastado por quase um quilometro até chegar na entrada da masmorra.
Ricardo foi levado desacordado até um dos calabouços mais profundos. Foi atirado em uma cela escura e fétida. O chão de pedra era escorregadio devido a grande umidade. A luz do Sol iluminava aquele local apenas duas horas por dia, bem como a luz da Lua.
Usando o pouco que restava de suas forças, Ricardo se arrastou até um canto da cela, sentou-se, olhou ao redor e pensou. – Como vou fazer para sair daqui e voltar para a floresta?
O próximo capítulo será publicado no dia 15/10/2007.
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