mamfescritor@yahoo.com.br

Envie um e-mail para mamfescritor@yahoo.com.br e receba um e-mail de aviso sempre que um novo conteúdo for publicado no site.
Espero que vocês apreciem as histórias aqui publicadas. Comentários, críticas e sugestões serão muito bem vindos.

Ala L - CAPÍTULO V - O calabouço

Written by Marco Antonio Mendes Ferreira on 18:56


Ricardo cochilara por conta do cansaço. Algumas horas passaram-se até que acordou assustado. Em pé ao redor dele estavam três presos. Lembrou-se de sua primeira vez na prisão e do que os presos mais antigos faziam com os novatos. Já estava preso tempo demais para virar namorada de alguém novamente. Reuniu suas forças e levantou-se. - Ai. Sai fora que aqui a parada é loca.
Os três não entenderam as palavras de Ricardo. - Mouro. No entendemos lo que ha dicho. Usted será nuestra amiga.
Eles começaram a rir. A comunicação era complicada. Além dos espanhois não entenderem português, Ricardo falava muitas gírias e só entendia uma ou outra palavra em espanhol. No entanto, a palavra amiga confirmou as suspeitas de Ricardo que, sem esperar que o atacassem, partiu para cima dos três acertando um potente murro de direita do preso que estava à esquerda, o qual tombou quase desmaiado. Em seguida, deu um passo para trás ficando no centro da cela com os dois punhos erguidos, como um pugilista.
Os dois começaram a circundar Ricardo ficando um de cada lado. Quando Ricardo achou que a distância entre os dois era suficiente para que ele pudesse agir, partiu em direção do mais magro, distribuindo vários cruzados e diretos rapidamente, levando mais um à lona. Imediatamente virou-se na direção do terceiro preso, o qual estava parado e sem saber o que fazer. - Calma-te. Calma-te.
Ricardo havia dado cabo dos três. Sabia que eles pensariam duas vezes antes de atacá-lo novamente, mas também sabia que precisaria ficar de olho neles o tempo todo. Sabia como as coisas funcionavam, se fossem de uma gangue o matariam assim que dormisse, mas as coisas ali pareciam bem mais simples. Logo eles veriam que Ricardo não pretendia ser o dono da cela e não teriam porque brigarem com ele novamente.
Sem demonstrar cansaço, Ricardo sentou-se novamente e um outro preso que estava próximo a ele perguntou. - O gajo. De onde es tu?
Ricardo olhou para o velhinho, magro e fraco. - Sou do Brasil.
- Bem que percebi que teu sotaque era de além mar.
- Você é de onde velho?
O português era totalmente diferente, mas Joaquim conseguia entender o significado das frases de Ricardo. - Sou de Lisboa. Portugal. Qual seu nome?
- Ricardo. E o seu?
- Joaquim de Nobrega Ferreira, ao seu dispor.
- Por que o senhor foi preso?
- Agradecido pela reverência. - O velho não sabia o que era ser chamado de senhor a muito tempo. - Matei um homem.
Ricardo espantou-se. Aquele velhinho parecia incapaz de matar uma mosca. - Por que?
- Ele violentou minha filha. Era um soldado do rei Carlos V. Matei-o e fui preso em seguida.
Ricardo lembrou-se de suas aulas de história. - Em que ano estamos Joaquim?
- Estamos no ano de 1587. Mais precisamente em um de fevereiro de 1587, ora pois.
Ricardo ficou pensativo. Segundo as aulas de história que teve na penitenciária, Filipe II era o atual rei da Espanha, Maria Stuart seria assassinada em sete dias. Com essa morte, o rei iria começar seus planos para atacar a Inglaterra e sofreria uma poderosa derrota em abril do mesmo ano em Cádiz. - Qual o nome do rei da Espanha Joaquim?
O velho ficou surpreso com a pergunta. - Por acaso batestes com a cabeça gajo? É Filipe II. Rei da Espanha e de Portugal, além de outras partes como Sicília, Nápoles e Milão.
- Preciso falar com ele Joaquim.
O velho começou a dar gargalhadas. - Ora pois, marcastes um horário? - Mais gargalhadas foram ouvidas. Todos os presos olhavam desconfiados para os dois. - Gajo. Ele só nos atende com entrevistas agendadas antecipadamente. - Joaquim não conseguia parar de rir, deixando Ricardo nervoso. - Estou falando sério velho.
Ricardo levantou-se e foi para a porta da cela. - Guarda. Guarda. Preciso falar com o rei.
Ele continuava gritando com o rosto colado ao buraco que existia na porta. Joaquim aproximou-se dele e disse. - Gajo. Eles não entendem português.
- Como digo isso em espanhol Joaquim?
Joaquim repetiu em espanhol a frase que Ricardo dizia. - Soldado. Quiero hablar con el rey.
Ricardo encostou o rosto na abertura da porta novamente e repetiu a frase dita por Joaquim repetidas vezes. De repente, um soldado surgiu do lado de fora da porta. Que quiere com el rey?
- Joaquim. Me ajude. Preciso dizer a ele que uma amiga do rei será assassinada.
Joaquim traduziu a frase para Ricardo que a repetiu para o guarda. - Una amiga del rey será muerta.
- Que amiga?
Ricardo voltou-se para Joaquim novamente. - Joaquim. Traduza a frase "só posso dizer ao rei".
Joaquim pensou um pouco. - Yo sólo puedo decir al rey.
Ricardo repetiu a frase ao guarda novamente mas desta vez, ao invés de receber uma nova pergunta, ouviu a porta sendo destrancada. Desconfiado, deu alguns passos para trás. Joaquim afastou-se e ficou abaixado fingindo não saber o que se passava. Três soldados entraram na cela com espadas e escudos em punho. - Quién quier hablar con el rey?
Ricardo levantou o braço um pouco assustado, com medo do que poderia acontecer com ele. O soldado aproximou-se de Ricardo. - El nombre? Quiero el nombre.
Ricardo olhou para Joaquim que estava deitado no chão de costas para ele. - Joaquim. O que ele disse?
Assustado, Joaquim levantou-se e traduziu para Ricardo. - Ele disse que quer saber o nome da pessoa.
Ricardo repetiu a frase. - Yo sólo puedo decir al rey.
O soldado mostrou um pequeno punhal. - Yo puedo poner esto en sus costillas hasta usted hablar.
Joaquim traduziu imediatamente. - Ele disse que pode colocar esse punhal em suas costelas até que você diga.
Ricardo abaixou-se e, com o dedo, escreveu um nome no chão da cela. O soldado inclinou um pouco, leu o nome e ordenou que os demais soldados saíssem. Em seguida, passou a bota sobre o nome até apagá-lo e saiu junto com os outros guardas, trancando a porta em seguida.
- Será que ele vai informar ao rei Joaquim?
- O pá. Tu és inocente mesmo não é o gajo. Tu achas que o rei sabe que existimos?
- Eu preciso sair daqui Joaquim ou vou ficar aqui para sempre.
Joaquim voltou a dar gargalhadas. - Tu falas o óbvio como se fosse uma nova descoberta científica.


**********

Rei Filipe II estava em sua biblioteca quando o capitão da guarda entrou e fez reverência. - Majestade.
- Diga Raul. O que é tão importante?
Ambos conversavam em um dialeto do sul da Espanha. - Majestade. Hoje pela manhã recebi notícias muito desagradáveis.
- Continue Raul.
- O mensageiro que enviastes para a Inglaterra foi encontrado morto na floresta próxima ao vilarejo de Damasco.
Filipe levantou-se espantado. - Quando foi isso Raul?
- Foi encontrado ontem. Ao que tudo indica ele apanhou bastante antes de morrer.
- Tortura! - Concluiu o rei. - E a mensagem? Estava em seu poder?
- Desapareceu majestade.
- Algum suspeito?
- Um homem foi preso ontem de noite majestade. Ele estava no vilarejo de Damasco e foi visto saindo da mata no mesmo dia da morte do mensageiro. Quando viu os soldados, tentou fugir.
- Este homem. Disse alguma coisa capitão?
- Não o interroguei ainda majestade.
- O que esperas?
- Irei imediatamente majestade. - Fez reverência e virou-se, pronto para sair quando o rei o interrompeu. - Espere Raul. Cautela no interrogatório.
- Por que majestade?
- Este homem pode ser culpado de alguma coisa mas não necessariamente do assassinato.
- Majestade?
- Se tu fosses o assassino, ficarias por perto ou desaparecerias como fumaça ao vento?
- Ele é um mouro majestade. Não é muito esperto.
Filipe II era conhecido como o sábio. Ficou intrigado com a resposta de seu capitão. - Deixemos de lado seus preconceitos capitão. A inteligência de uma pessoa não está ligada à cor de sua pele. Pode ser que seja ele, mas não descartemos nenhuma hipótese.
Filipe andava pela biblioteca pensativo. - Tenho muitos inimigos para acreditar que um mensageiro com uma carta tão importante foi morto ao acaso. Alguém ficou sabendo sobre o mensageiro ... e se sabia sobre o mensageiro ... também sabia para quem era a carta.
- Mas somente nós dois sabíamos sobre isso majestade.
Filipe olhou para seu capitão, o qual ficou apreensivo uma vez que ele era o único a saber além do rei. - Não fui eu senhor. Dou minha palavra de honra.
- Calma meu nobre capitão. Existe uma terceira pessoa que sabia sobre a carta.
- Quem majestade?
- Não se preocupe com isso. Eu cuidarei dessa pessoa no devido tempo. Antes, precisamos ter certeza que não foi realmente esse homem. Vá interrogá-lo imediatamente.
Raul estava saindo quando Filipe o interrompeu novamente. - E Raul. Faça isso pessoalmente e sozinho.
- Sim majestade. Agora mesmo. - Fez reverência e saiu.


**********

- Ricardo. Acalma-te gajo.
- Joaquim. Esse soldado de merda não vai falar nada para ninguém.
- Melhor assim homem. Como pensas explicar que sabes que alguém será assassinado? Por acaso tu es vidente?
- Não faço idéia Joaquim, mas é a única forma de sair daqui.
- Tu realmente acreditas que sairá daqui o gajo? Melhor parares de sonhar.
- Vocês não tem nada do tipo indulto de Natal?
- Indulto? O que é isso?
- Eles deixam você passar o Natal em casa e depois você volta para a cadeia.
- Tais louco o gajo? Vais me dizer que em sua terra se faz isso?
- Claro. Eu mesmo passei o Natal em casa mas não voltei. Fugi. Só que acabei sendo preso de novo.
- Tu já pensastes em largar essa vida? Parece que tu não é muito bom o gajo.
Um barulho de chaves sendo colocadas na fechadura fez com que todos voltassem suas atenções para a porta. Assim que ela abriu, três soldados entraram e um deles apontou para Ricardo.
- Vamo nos.
Os dois soldados seguraram os braços de Ricardo que tentava reagir até que o terceiro soldado aproximou-se rápido e decidido, desferindo um potente soco no estômago de Ricardo. Ele foi levado através dos corredores até uma pequena sala esculpida na rocha com uma única saída, a porta pela qual entraram. Dentro da sala haviam duas cadeiras e uma pequena mesa, ambas de madeira. Ricardo foi colocado em uma das cadeiras. - Déjenos.
Os dois soldados saíram, ficando apenas o homem para o qual Ricardo havia dito o nome. - Então. Contou ao rei?
- Yo no entiendo. Como sabe que esta mujer va a morir?
Ricardo conseguiu entender o que o espanhol disse mas não fazia idéia de como explicar, principalmente porque não falava espanhol. - Yo no entiendo. Yo no ablo espanhol. - A pronúncia não fora difícil para Ricardo, as palavras eram conhecidas e fáceis de pronunciar.
O soldado já estava ficando sem paciência. Puxou o mesmo punhal que havia mostrado a Ricardo da primeira vez. - Como sabe? Diga me.
Ricardo ficou desesperado. Só pensava em Joaquim e como ele poderia ajudá-lo na tradução. O soldado investiu sobre ele acertando um chute em seu joelho fazendo-o dobrar por conta da dor. Segurou no queixo de Ricardo fazendo com que erguesse a cabeça e acertou um murro no rosto de Ricardo. As luvas do soldado eram de metal. Ricardo sangrava pela boca e pelo nariz.
Antes que o soldado continuasse a torturá-lo, a porta abriu e o capitão Raul entrou. - Que passa?
O soldado ficou assustado e sem ação. Antes que pudesse reagir, Raul chamou os soldados e mandou prendê-lo, ficando sozinho na cela com Ricardo. - Muy bueno. Quién es usted?



**********

Rafael deixou a penitenciária apressadamente em seu Corsa preto. Fez diversas voltas pelas ruas da Lapa, passando mais de uma vez em algumas ruas. Quando finalmente certificou-se de que não estava sendo seguido, entrou no estacionamento de um edifício. Subiu até o décimo andar. Não havia recepcionista, apenas uma mesa diminuta com um telefone, papéis e algumas canetas. Do lado direito uma porta sem fechaduras e ao lado da porta um aparelho no qual Rafael colocou sua mão. O aparelho acendeu e começou a ler suas impressões digitais, em seguida Rafael aproximou seu olho direito de um outro dispositivo o qual leu sua íris. Imediatamente uma voz feminina robotizada invadiu o ambiente. - Nome?
- William.
- Senha?
- Shakespear.
A voz metálica pronunciou-se novamente. - Identificação positiva. - Imediatamente a porta abriu e Rafael entrou. A sala estava repleta de pessoas, cada uma isolada em sua baia. Quase ninguém conversava. Rafael foi para uma mesa e ligou seu computador. Depois de digitar seu usuário e senha, colocou uma foto em um aparelho de captura de imagens e em seguida um programa começou a comparar a foto digitalizada com uma série de fotos armazenadas em um arquivo eletrônico de fotografias. O sistema tentava identificar a mulher da foto trazida por Rafael.
O programa continuava enquanto Rafael bebia uma chícara de café. Quase meia hora depois, o sistema parou. Havia encontrado uma pessoa no arquivo que combinava com a foto trazida. Utilizando o teclado, Rafael consultou os dados da mulher localizada, conferiu se a pessoa era a mesma da fotografia que havia trazido e em seguida imprimiu a ficha da pessoa, pegou o papel na impressora, desligou seu computador e saiu.
O próximo capítulo será publicado até o dia 28/11/2007.

Related Posts by Categories



Widget by Hoctro | Jack Book
  1. 0 comentários: Responses to “ Ala L - CAPÍTULO V - O calabouço ”