ALA L - CAPÍTULO III - Trabalhando até tarde
Written by Marco Antonio Mendes Ferreira on 19:33
O corredor estaria vazio se não fosse pela presença de Severino, que esfregava o chão insistentemente. Ele molhava a vassoura dentro do balde e, em seguida, a esfregava no chão. Não tinha pressa, na verdade, gostava de varrer aquele corredor. Todas as salas da ala L eram acessadas através daquele corredor, e todos os médicos conversavam com Severino sempre que passavam por ele, o que o deixava muito feliz.
Severino trabalhava como ajudante geral de manutenção e limpeza da ala L da penitenciária, na verdade, além dos médicos e dos seguranças, ele era a única pessoa com autorização a entrar nessa ala. Nem mesmo os guardas da penitenciária tinham acesso ao local. Uma empresa especializada em segurança foi contratada para realizar a segurança interna. Os policiais da penitenciária não tinham acesso àquela ala, mas todos os médicos e especialistas da ala L possuem acesso irrestrito a todo o complexo penitenciário.
Dois anos atrás, quando a ala L começou a ser construída, Severino foi contratado para prestar serviços na penitenciária. Não possuía nenhum parente vivo e tudo que tinha estava dentro de seu trailer, o qual estacionou dentro da penitenciária, grudado a uma das paredes da recém construída ala L. Severino veio do nordeste aos quinze anos de idade e já morava em São Paulo a vinte anos, no entanto o sotaque ainda era muito acentuado.
A ala L é uma espécie de hospital, laboratório e escola. Alguns presos selecionados passam a ter direito a assistirem as aulas que ensinam desde matemática, física e história, até matérias técnicas que podem auxiliá-los a conseguir um emprego quando deixarem a prisão. As matérias ministradas os capacitam a serem pedreiros, eletricistas, mecânicos, ceramistas, oleiros e técnicos de informática, além de algumas aulas que os ensinam a fazerem diversos trabalhos manuais e a montarem uma grande variedade de objetos com materiais básicos e facilmente encontrados na natureza. Na verdade, a utilização de matéria-prima advindas da natureza é um dos pontos principais das práticas de confecção de objetos.
Um senhor alto de cabelos grisalhos saiu de uma das salas e ao passar por Severino o cumprimentou. – Boa noite Severino. Ainda trabalhando?
– Boa noite Dr Paulo. É que eu me atrasei um pouco. Mas eu acabo hoje, pode deixar.
Dr Paulo era um dos responsáveis pela ala L. Acima dele, somente o Dr Rubens. – Tudo bem Severino. Não precisa se preocupar. Só perguntei porque já está tarde e você precisa descansar.
Severino era muito sozinho e aproveitava toda oportunidade que surgia para poder conversar com alguém. – Mas preciso acabar de limpar senão acumula para amanhã, e o de amanhã acumula pro outro dia. E vai acumulando. Não gosto não seu Paulo. Gosto não.
Severino continuava limpando enquanto falava, demonstrando uma preocupação natural de quem realmente necessita daquele emprego para sobreviver. – É isso ai Severino. – Dr Paulo virou-se e já pretendia seguir pelo corredor quando Severino continuou a puxar assunto. – O senhor também está trabalhando doutor? Tem algum preso doente?
Embora não tivesse que dar satisfações, o médico, de forma educada e muito carinhosa, virou-se e respondeu. – Não Severino. Ninguém está doente.
– Então. Por que tu não vai dormi?
Severino fez uma cara de assustado e levou a mão à própria boca, tampando-a. – Desculpe doutor. Desculpe a intimidade.
O médico sorriu, pois para ele não era necessário tanta formalidade por parte de Severino. – Hahaha. Severino, calma homem. Não foi nada de mais.
O médico depositou a mão sobre o ombro de Severino e disse. – Agora preciso ir. Boa noite e até amanhã. – Sem olhar para trás, enquanto andava, disse. – E veja se não vai dormir tarde. Você também precisa descansar.
Alguns minutos depois, Severino trancava o balde e a vassoura no armário e rumava para seu trailer. Passou pelos seguranças rapidamente e seguiu margeando o enorme edifício chamado de ala L, destrancou a porta e entrou, trancando-a logo em seguida.
Enquanto isso, Dr Paulo sentava-se ao redor de uma mesa de reunião onde já estavam presentes outros doutores e algumas pessoas que prestavam serviços nos laboratórios. Um deles, cujo semblante era o mais sisudo de todos, perguntou irritado. – Com quem estava falando no corredor?
Dr Paulo se surpreendeu com a pergunta. Como ele sabia. – Com o Severino.
– Quem é esse homem?
– É o homem da faxina e da manutenção. Por que Rubens?
– O que esse homem fazia ali tão tarde? – Perguntou o Dr Rubens ainda suspeitando de Severino.
– Ele estava atrasado. Estava terminando de limpar o corredor.
– Alguém sabe alguma coisa sobre esse homem?
Todos se entreolharam, como se tentassem combinar uma resposta com o olhar. Apenas Rafael, o assistente do Dr Rubens, abriu uma pasta e se pronunciou. – Ele é o rapaz responsável pela limpeza e manutenção do nosso complexo, exceto pelas áreas secretas. Veio do nordeste para São Paulo aos quinze anos. Hoje está com trinta e cinco anos de idade. Não possui pais vivos e mora em um trailer que fica estacionado dentro da penitenciária, ao lado do complexo. Praticamente grudado em uma das paredes do complexo.
Rafael se ajeitou na cadeira, engoliu a saliva e continuou a explanação. – Toda segunda e terça-feira ele recebe a visita de uma mulher de cabelos castanhos. Ela chega, fica algumas horas e depois vai embora. Segundo as informações obtidas com os guardas do portão, é uma prostituta.
Dr Rubens sorria satisfeito diante da eficiência de seu assistente. – Muito bem Rafael. Mesmo assim, fiquemos atentos a esse tal Severino. Vamos ao que interessa. Qual a situação de nosso projeto?
Todos abriram suas pastas e cadernos de anotação. O Dr Ramos, responsável pelo projeto se manifestou prontamente. – A operação foi bem sucedida, resta saber se ele conseguirá se adaptar e sobreviver aos trinta dias.
O Dr Rubens se levantou e seu semblante demonstrava raiva e indignação. – Bem sucedida? Você chama isso de operação bem sucedida?
Ramos respondeu confuso. – O transporte foi completado com sucesso.
Rubens começou a andar ao redor da mesa enquanto falava. – Vocês arrancaram o homem de sua cela no meio da noite usando de violência. Todos os presos estarão se perguntando o que houve e porque seu companheiro de cela não volta. O corpo dele não pode ser encontrado em lugar nenhum. Vão começar a achar que ele foi assassinado e isso irá gerar problemas. – Após uma pequena pausa para que todos assimilassem o que ele estava dizendo, e para poder retomar o fôlego, o Dr Rubens continuou. – Não dei ordens de trazê-lo sem levantar suspeitas? Qual a dificuldade em dar um remédio que causasse diarréia ou náuseas para que ele fosse trazido ao hospital sem levantar suspeitas sobre esse setor? – Ele estava furioso. Indignado. – Qual foi a parte das minhas ordens que vocês não entenderam? – Ele mesmo respondeu. – Pelo visto, tudo não é!?
Todos estavam apreensivos. Rubens estava nervoso e isso não era bom para ninguém. – Logo vão começar a fazer perguntas. Os presos vão começar a reclamar a falta do companheiro. E o que vamos fazer se ele não voltar?
Dr. Rubens agrediu a mesa com um golpe. – Me digam? O que faremos caso ele não volte? Se ele tivesse saído de sua cela doente, poderíamos dizer que foi algum vírus, mas com os seus procedimentos de remoção, como vamos explicar seu desaparecimento?
As trocas de olhares entre os cientistas e os demais revelavam a ausência de uma resposta. Novamente, apenas Rafael se manifestou. – Senhor. Se realmente precisarmos, podemos simular uma fuga do laboratório e da prisão. Dizemos que ele escapou. Posso pensar nos detalhes com mais calma.
Dr. Rubens ainda estava nervoso, mas ficou contente com a saída proposta por Rafael. – Muito bem. Você tem três dias para pensar sobre isso. Não quero falhas nesse plano entendeu?
– Sim senhor. Trabalharei nisso.
– Enquanto isso. Quero que me enviem tudo o que sabem sobre essas pessoas. – Dito isso, o Dr Rubens pegou um controle remoto sobre a mesa e apontou para o projetor que ficava no teto apontado para um enorme telão preso à parede, utilizado para as apresentações. Duas fotos apareceram, a de Severino trabalhando no corredor e a da prostituta passando pelo portão de entrada.
O próximo capítulo será publicado até o dia 29/10/2007.
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1 comentários: Responses to “ ALA L - CAPÍTULO III - Trabalhando até tarde ”
By Lisa Maria on 23 de outubro de 2007 às 11:06
Oi passei aqui meio correndo e não deu pra eu ler muito mais parece interessante, vou colocar seu blog nos meus favoritos pra eu ler depois. abraços.