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Ala L - CAPÍTULO VI - A visita de Ana

Written by Marco Antonio Mendes Ferreira on 18:24


Ricardo não sabia o que responder. Sem Joaquim a comunicação ficaria difícil. Não sabia como, mas uma coisa era certa, ele havia voltado quatrocentos e vinte anos no passado. Sua mente fervilhava, milhares de pensamentos surgiam em milésimos de segundos. Não conseguia imaginar uma maneira de explicar para aquele homem como fora parar ali e nem como sabia dos acontecimentos que estavam por vir. Uma coisa era certa, no passado ou no futuro, aquilo era um interrogatório. Pior que isso, em uma época onde os negros eram escravos e não existiam direitos humanos para eles. - Meu nome é Ricardo.
Ricardo batia a mão no peito enquanto repetia seu nome. - Ricardo. Eu. Ricardo.
- Ricardo. Mi nombre es Raul. Que hace usted aquí?
- No hablo espanhol. Hablo portugués.
Raul irritou-se. - Que hace usted aquí? - Disse em tom áspero.
Ricardo precisava trazer Joaquim, seria impossível continuar o interrogatório dessa forma. - Na jaula. Cela. - Ricardo gesticulava muito, colocou as duas mãos fechadas em frente o rosto com os braços semi flexionados, imitando alguém segurando barras paralelas. - Jaula. Cela.
Raul entendeu a mímica realizada por Ricardo. - Cárcere?
- Si. Cárcere. Joaquim. Velho português. Habla espanhol.
Novamente Raul conseguiu entender a mensagem passada por Ricardo. Abriu a porta da sala de interrogatório e passou instruções a um dos soldados que aguardava do lado de fora. Minutos depois, Joaquim entrou na sala empurrado por um soldado e foi amarrado em uma cadeira próxima a de Ricardo. - Que fizestes o gajo. Por que estou aqui? O que dissestes?
- Calma homem. Não sei como mas disse que você sabe português e espanhol. Não entendo nada que esse cara fala.
Raul sacou a adaga que trazia na cintura, segurou o pescoço de Ricardo com força, encostou a lâmina em sua garganta e perguntou. - Que hace usted aquí?
Joaquim apavorado traduziu. - Ele perguntou o que você faz aqui?



**********

Severino abriu a porta do trailer. Uma mulher entrou rapidamente. - Oi amor. Sentiu a minha falta.
A fala era suave, lenta e maliciosa. Severino trancou a porta imediatamente. - Demais. Você tá mais linda do que nunca.
A mulher sentou-se enquanto Severino pegava um papel e uma caneta na mesa enquanto falava com sotaque nordestino. - Vem aqui. Quero senti seu cheiro.
Em seguida, Severino executou um filme pornô no computador e aumentou o volume do equipamento. Além do filme, Ricardo ligou um fone de ouvido a outro equipamento e reproduziu a filmagem da reunião onde suas fotos foram exibidas. Ana assistia a tudo atentamente enquanto o filme continuava a ser exibido. A comunicação entre os dois era feita através de mensagens escritas no bloco de papel. - "Eles suspeitam de algo?".
- "Não sei Ana. Só sei que alguns presos sumiram.".
- "Como assim sumiram?".
Ricardo parou a reprodução da reunião e começou a exibir o vídeo da noite em que os guardas da ala L entraram na cela e levaram um preso. - "Esse foi o segundo".
- "O que houve com ele?"
- "Não sei. Desapareceu.".
- "Não está no laboratório?".
- "Não sei dizer. Não tenho acesso a essa área. Nem mesmo por meio de câmeras.".
- "E o primeiro?".
- "Não é visto desde o dia nove.".
- "O que fizeram com ele?".
- "Não faço idéia. Ninguém sabe.".
- "Como vamos fazer para descobrir?".
- "Primeiro, leve essa unidade externa com alguns vídeos e veja se alguém consegue ler os lábios das pessoas. Depois tentem levantar as fichas desses médicos e descubram quais as suas especialidades. Talvez isso nos dê uma pista.".
- "Quais médicos?".
- "Nessa unidade de armazenamento existe uma pasta com vários arquivos textos com dados e arquivos de fotos dos médicos.".
- "Mas e nossas fotos? Por que eles estavam vendo nossas fotos?".
- "Não sei Ana. Foi muito estranho. Agora tem um tal de Rafael investigando tudo por ai.".
- "Quem é esse Rafael?".
- "Braço direito do Dr. Rubens. Tem fotos dele na unidade também.".
- "Eu vou descobrir o que puder sobre todos eles. De repente as especialidades dos médicos podem nos dar uma idéia do que está acontecendo aqui.".
Severino e Ana começaram a falar palavras picantes de forma ligeiramente vulgar. Precisavam encenar que estavam tendo relações sexuais no trailer caso alguém estivesse ouvindo.



**********

Rafael entrou na sala do Dr. Rubens. - Me chamou doutor?
- Entre meu jovem. Entre.
Rafael ouvia sons de gemidos e suspiros, semelhantes a de um filme pornô caseiro, algo muito incomum vindo daquele senhor. - O que é isso doutor?
- A moça veio visitar o faxineiro.
- O senhor implantou uma escuta no trailer?
- Não. Instalei um microfone muito potente do lado de fora e o apontei para o trailer. Posso ouvir uma agulha atingindo o chão do veículo.
Rafael sentou-se e ficou aguardando que o doutor Rubens se manifestasse.
- Descobriu alguma coisa meu jovem?
- Até agora nada senhor.
- A ficha do faxineiro no RH estava ok?
- Sim senhor. Não havia nada de importante, mas ainda estou procurando. Não desistirei tão cedo.
- Muito bem meu jovem. E sobre a moça?
- Nada ainda. Pelo visto nunca foi presa antes. Mas ainda estou esperando informações de algumas fontes.
Dr. Rubens parecia contente, abriu um sorriso satisfeito. - Excelente Rafael. Continue assim. Alguma coisa não me cheira bem.
Levantou-se da cadeira e olhou firme para Rafael com o dedo apontado para ele. - Lembre-se, sempre desconfie de tudo e de todos, quanto menos suspeito for, mais desconfiança deves ter. Um camaleão muda de cor para se disfarçar, mas continua sendo um camaleão.



**********

- Ôche mulé. Tu tá cada vez meió.
- Mas agora eu vou indo tá. Me liga qualquer dia desses.
- Viche. Demoro.
- Tchau lindo.
Ana saiu do trailer com a unidade de armazenamento presa com fita entre suas pernas. Saindo da penitenciária, entrou em seu carro e foi embora.




**********

Rafael bebia com o doutor Rubens quando um dos monitores da sala do doutor mostrava a namorada de Severino deixando a penitenciária e entrando em seu carro. O doutor pegou seu celular, o qual também era um rádio, e pressionou o botão para se comunicar enquanto via o carro partindo. - Elvis left the building.
Em seguida olhou para Rafael dando gargalhadas. - Sempre quis dizer isso. Via nos filmes americanos quando mostrava a cena de um político importante saindo e os seguranças diziam isso.
Em seguida, Rafael ouviu uma enorme explosão. - O que foi isso doutor?
- A sua idéia meu jovem. A sua idéia?
Rafael estava assustado. O doutor parecia feliz e eufórico, completamente diferente daquele homem bravo e carrancudo que sempre via. - Como assim?
- Nossos presos acabaram de fugir com a ajuda de nosso amigo faxineiro e sua namoradinha.
O próximo capítulo será publicado até o dia 12/12/2007.

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