ALA L - CAPÍTULO IV - Sonhando com os anjos
Written by Marco Antonio Mendes Ferreira on 19:20
Assim que trancou a porta do trailer, Severino jogou sua jaqueta sobre o sofá cama que ficava no canto esquerdo do trailer, abriu o pequeno frigobar que ficava sob a diminuta pia bem a sua frente. Pegou uma jarra com água, encheu um copo, guardou a jarra e fechou o frigobar, dirigindo-se para o lado direito do interior do trailer.
Além das pequenas cortinas fechadas cobrindo as janelas, Severino deixava uma grande cortina esticada, de uma lateral até a outra do trailer, para impedir que alguém do lado de fora visse o que ele escondia do lado direito. Severino afastou a cortina o suficiente para passar e depois voltou a fechá-la.
A cortina escondia uma mesa de madeira projetada sobre medida para caber naquele minúsculo espaço. Sobre ela, um monitor colorido de dezenove polegadas e mais oito pequenos televisores preto-e-branco. Além disso, um teclado e um mouse sem fios, e oito unidades de armazenamento externas dispostas em duas pequenas pilhas. Todos os equipamentos estavam ligados aos quatro computadores localizados sob a mesa.
Severino acompanhava uma reunião que estava acontecendo na ala L através de um dos televisores, enquanto isso verificava tudo o que as trinta e duas câmeras espalhadas pela penitenciária tinham gravado ao longo do dia. Quando achava alguma coisa importante, salvava o arquivo em uma unidade de armazenamento.
A maioria das gravações feitas eram rotineiras e acabavam sendo descartadas. Poucas eram mantidas. Toda noite Severino realizava esse procedimento enfadonho, mas nessa noite, Severino foi surpreendido. Viu, através do televisor que exibia a reunião que acontecia na ala L, sua foto e o da mulher que o visitava toda semana exibidas no telão da reunião. Imediatamente pegou seu celular e escolheu a opção de enviar uma mensagem. Digitou a mensagem. - "Estou com muitas saudades. Gostaria de te ver amanhã. Te espero ansioso." - Em seguida digitou o número de telefone, o qual já havia memorizado, e enviou a mensagem.
Começou a andar de um lado para o outro. Estava nervoso e inquieto. Seu cérebro borbulhava em pensamentos e conjecturas. - Por que mostraram minha foto e a de Ana na reunião? - Pensou em silêncio.
De repente um novo pensamento veio em sua mente e Severino voltou para a mesa. Apressadamente começou a procurar os arquivos de uma câmera específica. Pegou todos os arquivos do dia e começou a assisti-los um por um. A câmera filmava o interior das celas trinta e sete, trinta e oito e trinta e nove.
Filme após filme, Severino os copiava em um local para uma possível consulta posterior, embora não encontrasse nada de anormal. Enquanto assistia aos vídeos, um dos televisores estava exibindo exatamente essa câmera e, de repente, dois homens trajando as mesmas roupas dos seguranças da ala L passavam no corredor e pararam exatamente em frente a cela trinta e oito. Um deles iluminou o interior da cela com uma lanterna e, com a cabeça, fez um sinal apontando a pessoa iluminada. Em seguida foram embora.
Severino ficou ainda mais assustado. Levantou-se da cadeira, levando uma mão à cintura e outra à cabeça. Estava muito nervoso e apreensivo.
**********
Após a reunião. Todos saíram da sala nervosos e descontentes, ficando apenas o Dr. Rubens e Rafael, seu assistente. - Rafael. Quero que investigue tudo sobre esse Severino.
- Pode deixar Dr Rubens. Amanhã mesmo começarei a averiguação.
- Conto com você Rafael. Não me desaponte garoto.
- Não desapontarei Dr. - Disse Rafael confiante de sua eficiência.
**********
Na manhã seguinte, Severino estava limpando o mesmo corredor visitado pelos guardas da ala L na noite passada. Quando estava passando em frente a cela trinta e oito, um preso começou a perturbá-lo. - Ai maluco. Arranja um cigarro.
Severino tentava apenas falar o suficiente. - Não fumo não senhor.
O preso insistia. - Você não consegue um para mim não?
- Não posso fazer isso não senhor.
Os demais presos da cela que haviam se aproximado começaram a gargalhar. - Senhor?
- Não sou nenhum senhor. Sou um desgraçado mesmo.
- Mas mesmos um desgraçado possui um anjo da guarda olhando por ele à noite.
- Você acredita que eu tenha um anjo olhando por mim faxineiro? - Falou o preso de cabelos loiros com tatuagem de caveira no ombro.
- Tenho certeza moço. Só não sei se é o seu anjo. Mas alguém nessa cela tem. - Severino tentava limpar aquela parte do corredor rapidamente.
Um dos outros presos se intrometeu. - Ai. A única coisa que tem por aqui são os cães que vêm pegar nois de noite, na surdina.
Severino parou. Sua cara era de espanto. - Como assim moço? O demo?
- Não homem. Os guardas mesmo. A uns dois ou três dias vieram buscar o Ricardo e ele não voltou mais.
- Que guardas?
- Os do hospital. Entraram quando a gente tava dormindo. Deram uma injeção no braço do Ricardo e carregaram ele embora.
Outro preso se manifestou. - É. Pode crê. Devem ter finalizado ele já.
O preso loiro cutucou o companheiro de cela em tom de repreensão. - Fica quieto. Já falou muito. - Depois voltou a falar com Severino. - Eu ando sonhando com anjos. Sonhei com eles a dois dias atrás e também a duas semanas, na terça-feira. O que é isso?
Severino encarou o preso, sem afrontá-lo. - Não sei. Talvez eles quiseram te passar uma mensagem. Como foi o sonho: Você lembra de alguma coisa?
- Não lembro não. Só lembro que nesses dois dias eu sonhei com anjos.
Severino parou de conversar e voltou a limpar o corredor. Queria sair dali o mais rápido possível. Não parava de pensar em suas câmeras. O dia passou e Severino continuou seus afazeres programados.
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Rafael entrou no departamento de recursos humanos da penitenciária. - Bom dia Vânia. Preciso olhar os registros dos funcionários da limpeza.
Vânia se levantou. - Claro Rafael. Me siga.
Logo chegaram a um enorme arquivo com várias gavetas. - Estão aqui. Fique à vontade.
Rafael abriu a gaveta indicada por Vânia. Pegou a ficha de todos os funcionários da limpeza e as levou para uma mesa vazia localizada perto do arquivo. Fingiu anotar dados de algumas fichas até que abriu a de Severino. Sua valise estava aberta sobre a mesa e posicionada estrategicamente, impedindo que Vânia e os demais que estavam na sala pudessem ver o que ele fazia.
De sua valise Rafael retirou uma pequena câmera ligada ao seu computador portátil. Começou a filmar cada folha da ficha de Severino. Na verdade, ficou preocupado pois, enquanto todas as fichas possuíam várias folhas com informações e anotações sobre os funcionários, a ficha de Severino possuía apenas três folhas.
Conferiu a gravação para se certificar de que estavam nítidas. Fechou as fichas e as guardou novamente no enorme arquivo. - Obrigado Vânia.
- Tão rápido? Já anotou tudo que precisava?
- É que eu trouxe meu notebook. Ai fica mais fácil.
- Ahhh tá. Então tá. - Vânia abriu um sorriso sincero e convidativo. - Volte mais vezes Rafa.
Rafael ficou meio sem jeito por causa de sua timidez. - Pode deixar. Volto sim.
**********
Já era final de expediente e Severino, como sempre, guardou o equipamento na dispensa e rumou para seu trailer. Entrou, trancou a porta e ligou seus monitores. Pegou um calendário e começou a fazer as contas para saber quais eram os dias que o presidiário havia sonhado com anjos. - "Se hoje é dia vinte e seis, então tenho que pegar as filmagens do dia 24 e..." - Percorreu o calendário com o lápis enquanto pensava. - "... dia nove."
Imediatamente Severino procurou todas as gravações realizadas naquelas duas datas, guardadas em suas unidades de armazenamento. Após alguns minutos, encontrou as filmagens do dia vinte e quatro. Começou a assistir um por um em velocidade rápida. Uma hora depois encontrou a gravação dos guardas entrando na cela e injetando algo em um presidiário que estava dormindo. Em seguida, bateram em alguns presos que tentaram impedi-los de levá-lo.
Severino copiou essa gravação em uma outra unidade de armazenamento que retirou da gaveta. Essa era menor e ligada diretamente em um dos computadores, sem precisar de cabo de energia elétrica. Em seguida, procurou gravações feitas nas demais câmeras espalhadas pelo caminho que os guardas fizeram da cela até a ala L. Guardou todas as gravações juntas. Precisaria dessas evidências.
Depois repetiu o mesmo procedimento para as gravações do dia nove e as copiou na mesma unidade de gravação externa que os outros vídeos.
Meia hora depois, alguém batia em sua porta.
O próximo capítulo será publicado até o dia 12/11/2007.
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2 comentários: Responses to “ ALA L - CAPÍTULO IV - Sonhando com os anjos ”
By Anônimo on 30 de outubro de 2007 às 06:41
Quando começa o capítulo, a descrição tá muito prolongada, deve ser diminuída,a parte boa é quando começa a informar que Severino tem televisores, onde ele olha as cameras da penitenciária etc.
Também gostei da parte do misterio, porque haviam colocado no telão da reunião, a imagem de serevino e da mulher...
na parte do cara que acendeu a lanterna em direção a cela, também é boa.
tem muito misterio, não é? Tá bom mesmo esse capítulo.
Dessa vez ta mesmo animal, suas ideias estão muito boas. Se continuar assim dá até pra publicar, digo em relação as idéias, pois sempre tem outros erros que devemos concertar, apesar que são as idéias que são a base principal de qualquer historia, por mais bem escrita que esta seja.
By Marco Antonio Mendes Ferreira on 30 de outubro de 2007 às 19:25
Realmente o começo poderia ter ficado mais dinâmico, mas achei que seria importante para o desenrolar da estória, saberem como é o trailer de Severino por dentro.
Muito obrigado pelo comentário.
Vou tentar manter a estória nesse rítmo.
Abraço.